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É lamentável um progressista defender militarização nas escolas

ECOA

19/12/2019 10h59

O que uma escola deve ensinar? Há, em educação, uma divisão didática dos tipos de conteúdos. Eles podem ser cognitivos (fotossíntese, concordância verbal, clima e relevo), procedimentais (o passo a passo de um experimento químico, por exemplo) e atitudinais (habilidade para o trabalho em grupo, respeito à diversidade etc.). Como toda classificação didática, essa também é artificial. Na vida prática, mobilizar um conhecimento para solucionar problemas acaba exigindo um pouco das três dimensões. Mesmo que o desafio pareça simples, como apresentar um seminário, por exemplo: é preciso compreender sobre o que se vai falar, selecionar os pontos mais relevantes, organizar a exposição e considerar a opinião de todos os participantes antes de ir para a frente da sala.

É falacioso o argumento de que os policiais, nas escolas militarizadas, cuidam "apenas" da disciplina. Essa tem sido a justificativa de governos que se classificam como progressistas, a exemplo de Rui Costa (PT-BA), para defender o modelo. Na Bahia, já são 83 escolas militarizadas, informa hoje o repórter João Pedro Pitombo na Folha de S. Paulo. Bolsonaro promete 216 no Brasil até 2023. Uma quantidade insignificante diante de um universo de 180 mil escolas, mas suficiente para ser martelado pelo máquina de propaganda do capitão reformado.

Há apoio popular à iniciativa – daí o cálculo eleitoral de políticos como Costa. É compreensível. Muitas escolas sofrem com graves problemas como violência e tráfico de drogas. Surpreendente seria se não sofressem. Escolas não são ilhas e podem carregar as dificuldades dos entornos conturbados em que se inserem.

A questão é o que fazer com esses problemas. Militarizar é a saída preguiçosa. Diante dos impasses, há sempre uma autoridade externa dizendo o que fazer e pronta para punir. Rica em detalhes, a reportagem da Folha diz que os policiais controlam até o tempo que os alunos passam no banheiro. Todos se perfilam em ordem unida na entrada da aula. Meninos precisam usar cabelo cortado à máquina. Meninas, coque e "maquiagem discreta". Por que, mesmo?

Grupos de estudo ligados à Associação de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia relatam outras práticas: obrigação de bater continência, cantar hinos e hastear a bandeira. "Há uma rígida hierarquia entre alunos e policiais que se reproduz entre os alunos mais velhos e os menores. Os policiais são vistos como autoridades a quem se deve submissão, respeito e obediência incondicionais", relata o documento redigido pelos grupos. Tais ações reverberam diretamente no tipo de aluno que se quer formar: incentiva-se a obediência pelo medo e não pelo entendimento de que as regras estabelecidas – se possível, pelo conjunto da comunidade – são justas e necessárias.

O marketing oficial invoca, ainda, um suposto "desempenho superior" das escolas militarizadas. Comparações com colégios civis de mesmo perfil jogam por terra o argumento: o desempenho é similar. No caso das militares de destaque, as razões das boas notas tendem a ser externas às escolas: seleção por vestibulinho, política de expulsão de alunos-problema e investimento superior à média das escolas do município ou estado.

Pode-se buscar dentro das redes públicas casos em que o problema da disciplina e das incivilidades é resolvido de uma outra maneira – a pedagógica. Para ficar em um exemplo já célebre: a EMEF Presidente Campos Salles, em Heliópolis, maior favela de São Paulo, venceu a violência derrubando (literalmente) os muros da escola e se integrando à comunidade por meio do diálogo. Casos assim também podem ser estudados para ganhar escala.

Desenvolver a autonomia, o respeito mútuo e a colaboração – em resumo: educar – dá muito mais trabalho. Talvez por isso governos que se vendem como de esquerda prefiram ignorar os ricos saberes das pesquisas e ações sobre mediação de conflitos e optem por alternativas salvacionistas. Entregam suas escolas a autoridades que varrem para baixo do tapete, por meio do temor, as dificuldades incontornáveis da educação.

Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.

Rodrigo Ratier