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Rodrigo Ratier

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Quer aprender a dialogar? Assista a Eduardo Coutinho

ECOA

21/10/2019 10h44

O maior documentarista brasileiro recebe uma mostra em sua homenagem no Itaú Cultural (Av. Paulista, 149, São Paulo). Em cartaz até 24 de novembro, a Ocupação Eduardo Coutinho também está ao alcance de quem não mora na capital paulista – o site da exposição reúne preciosidades exclusivas sobre o cineasta. É um programa imperdível para… eu ia dizer para quem gosta de cinema, mas, na verdade, é imperdível para quem gosta de pessoas.

Eduardo Coutinho (1933-2014) se notabilizou pelo estilo minimalista. Um cinema com quase nada, como define João Moreira Salles, também cineasta, amigo pessoal de Coutinho e produtor de diversos filmes seus. Percorrer sua obra é testemunhar um longo strip tease composicional, em que a excitação do cineasta parece ser a seguinte: se eu tirar mais uma coisa, ainda vai ser cinema? 

A cada novo filme, Coutinho eliminava um recurso clássico do documentário. Vão embora a trilha sonora, as imagens de cobertura, a narração em off, o cenário. Até restar só a alma: um entrevistado, um entrevistador e a palavra.

Aprendi muito com Coutinho sobre jornalismo. Em minhas aulas, utilizo trechos de filmes como Edifício Master (2002), Peões (2004) O Fim e o Princípio (2006) e Últimas Conversas (2015) como obras primas da entrevista humanizada. São diálogos na acepção mais generosa do termo, o da busca de entendimento mútuo. 

Como se pode imaginar, trata-se de objetivo quase inalcançável. Coutinho se aproxima dessa utopia por meio de dois recursos triviais: uma escuta apurada e um interesse genuíno pela história do outro.

Você acha bom envelhecer? Tem medo da morte? Sente saudades daquela época? Coutinho fala pouco, pergunta coisas a um só tempo simples e muito profundas. Ao escutar, dá espaço aos ritmos de resposta, permite o silêncio. E volta à carga para saber mais. Qual o nome de seus filhos? Tem orgulho de ser peão? Qual sua música preferida? São os detalhes, afinal, que tornam cada história única. 

Nada nas conversas é roubado ou extraído à força. Não estamos diante de um interrogatório ou de uma pauta cheia de cascas de banana. Você é feliz? Em Santo Forte, à senhora que pergunta se é mesmo necessário responder a essa dúvida dolorosa, o cineasta responde: "Não". Em Edifício Master, ao depoimento revelador da garota de programa, ele alerta que vai passar no cinema, relembrando das consequências do que foi dito e de que é sempre possível voltar atrás. 

O impressionante é que as pessoas se abram a alguém que, até minutos antes, era um completo desconhecido. Há um ambiente de segurança: Coutinho ouve grandes alegrias e barbaridades, saudades fundas e sonhos malucos, injustiças e confissões inesperadas. Consegue revelações conjugando o respeito pelos relatos com a suspensão de qualquer juízo de valor. Produz o que define como copresença: diálogo em que cada um, entrevistador e entrevistado, contribui para trazer à tona uma verdade escondida, um ponto de vista impensado, uma reflexão iluminadora.

Quando isso ocorre, ambos – e também o público – saem da conversa com a sensação de terem ganho algo. Talvez o entrevistado tenha vontade de rever o entrevistador, como ocorre com a senhora octogenária de O Fim e o Princípio que se despede às lágrimas do cineasta que acabara de conhecer.

Coutinho leva a sério seus interlocutores, geralmente pessoas simples e comuns. A trajetória premiada reforçou-lhe a humildade, não a arrogância ou o cinismo. O cineasta parece acreditar – e nos fazer acreditar – que cada entrevistado deles pode ajudá-lo a entender – e nos fazer entender – um pouco mais sobre o sentido da vida. Sabendo-se incompleto, talvez tenha descoberto que o sentido é a própria sucessão de conversas. Conversas que aplacam a incompletude e abrem novos universos de mistérios. Por isso, para ele, seguir conversando era a própria razão de existir.   

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.

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