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Rodrigo Ratier

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Precisamos ter empatia com os terraplanistas

ECOA

28/10/2019 10h24

Fomos arrogantes. Demos de barato que o mundo evoluía. Pautado pelo racionalismo científico e pelo humanismo, caminhando no sentido da valorização das diferenças e de que todo ser humano, fosse qual fosse seu credo, cor, orientação sexual ou classe social, merecia e precisava ser respeitado. Que as conquistas da humanidade, por lógica, seriam consagradas a todos e todas. É que, quando isso não acontecesse, o caminho natural seria a correção das injustiças.

Estávamos errados. Amplas camadas da população viram as mudanças – vamos chamá-las genericamente de progressismo – como uma ameaça. A ciência referendou que não há nada de errado com muitas formas de amor, mas muita gente ainda se incomoda em ver duas pessoas do mesmo sexo se beijando nas ruas. A evolução é a teoria mais aceita para explicar a vida na Terra, mas há quem insista em ver o criacionismo na escolas. As estatísticas provam as desigualdades de gênero e de raça no acesso à educação e ao mercado do trabalho, mas a chiadeira contra cotas e políticas de diversidade segue ruidosa.

O que temos feito, então?

Em vez de explicar pacientemente a necessidade de mudanças, de provar pela argumentação ponderada a justiça das novas propostas, de escutar e debater queixas e críticas, demos de ombro. Pior: classificamos essas pessoas de racistas, homofóbicos, machistas, atrasados. O que em várias situações específicas pode ser verdade, mas não resolve o problema.

Bem ao contrário: ao serem ridicularizados, amplos setores da sociedade alimentaram ressentimento. Com o tempo, muitas pessoas acabaram atraídas por grupos interessados em lucrar, política ou economicamente, com a veiculação de ideias perigosas, oportunismos e conspirações variadas. Como se sabe, a proposição mais estapafúrdia – até o momento, sempre é bom dizer – é a defesa da Terra plana. Mas há terraplanismos para gostos variados: climatismo, globalismo, negação do holocausto e da ditadura, além do combate a problemas imaginários como "ideologia de gênero" e "marxismo cultural".

Podemos olhar para tudo isso de uma posição de superioridade e rir. "Que gente burra!" A pergunta é: quem está rindo de quem? Muitos adeptos de teorias não fundamentadas estão no poder, buscando impor sua visão de mundo opressora (porque sempre baseada na existência de um inimigo a ser combatido e eliminado) às sociedades que governam.

Podemos deixar tudo como está, permitindo que cada vez mais pessoas se radicalizem e percam cada vez mais contato com os consensos necessários à vida em sociedade. Mas há outro caminho: escutar essas pessoas, procurar entender o que as levou a pensar dessa forma.

Entender o interlocutor e ter empatia com sua condição não é sinônimo de concordar com ele. Significa, antes de tudo, uma escuta atenta para compreender suas motivações, quem sabe identificar alguma lacuna que possa ser preenchida ou o ponto em que a comunicação se perdeu.

Também não significa abrir mão de nossas ideias e convicções, mas apresentá-las de forma serena e respeitosa. Isso se chama diálogo e, novamente, não precisa terminar em concordância para ser bem-sucedido. Escutar e ser escutado é um primeiro passo importante para a humanização que reaproxima.

Um parênteses sobre a defesa dos direitos humanos: o sociólogo português Boaventura Sousa Santos cunhou o conceito de "linha abissal" para descrever um abismo que separa situações e seres humanos visíveis dos invisíveis. Mostrar esse abismo e o sofrimento dos esquecidos é um ponto importante para a defesa da dignidade humana para todos, mesmo aqueles que mais nos desafiam.

Isso é especialmente importante quando há processos de socialização levando à construção de bolhas. Insisto que não devemos tratar a situação como uma curiosidade exótica. Desde antes das eleições, acompanho grupos de extrema direita no WhatsApp. Posso afirmar: há uma parcela grande de nossa população alimentada por uma realidade paralela, exposta a discursos fundamentalistas, variados níveis de desinformação e visões demonizadoras de um número crescente de pessoas.

É preciso um trabalho persistente para chamá-las à consciência.

Será fácil? Não. Será rápido? Não. O resultado é garantido? Não. Apesar disso, é melhor agirmos rápido se ainda quisermos ter uma sociedade de verdade.

As reflexões deste texto são livremente baseadas na palestra de Boaventura Sousa Santos na abertura da 39ª Anped, em Niterói (RJ).

Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.

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