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Rodrigo Ratier

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A importância educativa de não fazer nada

ECOA

04/11/2019 09h52

"Foi muito bom", disse Luiza, e eu concordei. Acabávamos de completar, eu e minha filha de 4 anos, uma volta despretensiosa pela vizinhança. Acabamos parando numa lanchonete, ela para um picolé de maracujá, eu, para um a café. Mas o mais bacana foi o que aconteceu no trajeto.

Tivemos um tempo só nosso, algo raro depois que a irmã mais nova nasceu. Luiza é um pouco tímida e não costuma falar muito sobre o que acontece na escola. Naquele dia, ficou à vontade para contar sobre o batizado na capoeira e para me ensinar uma nova canção sobre as cores verde e vermelho. Também paramos em frente a um prédio em construção e nos espantamos: como está alto! Será que já vão terminar? Discutimos a reforma do parquinho e imaginamos como vai ficar. O tanque de areia, ela me diz, já mudou de lugar. Finalmente vão instalar um escorregador? Luiza não tem tanta certeza assim.

Saímos para caminhar sem nenhum objetivo específico – e acho que aí é que está o segredo. O que demos um ao outro foi uma pausa no tempo do relógio, com o qual parecemos estar sempre em falta. Mergulhamos no tempo da relação, um tempo sem pressa e sem propósito, ou melhor, com o propósito da presença. Acho que nos saímos bem: descobri coisas novas sobre ela e ela sobre mim. Ficamos um tiquinho mais próximos depois daquela caminhada.

Em um de seus livros biográficos, Paulo Freire fala sobre a importância de ter tido o convívio de seus pais à sombra de uma mangueira em seu quintal. Dedicando atenção ao menino, acabaram por educá-lo, sem que para isso fosse preciso recorrer a lousa, livro e caderno. Com o tempo, foi-se despertando o encantamento pelo mundo, traduzido pela vontade de aprender sempre mais.

Difícil achar espaço para essa vontade na vida de uma criança de rotina cheia, que vai da escola para a natação, de lá para o inglês e que, quando chega em casa, se enfurna na TV ou no tablet. Desde cedo estamos ensinando que a vida oscila entre a produção e o entretenimento, e que tudo que fuja da díade – vou usar uma palavra meio fora de moda, mas necessária – alienante deve ser evitada. Daí o horror ao silêncio e ao tédio, ao ócio e à contemplação.

É preciso e possível resgatar o valor formativo de não fazer nada. Por cobrir o educação, visitei muitas escolas, e uma das experiências mais impactantes que tive foi em Summerhill, escola ícone – e bastante radical – em termos de gestão democrática. Por lá, nenhum aluno é obrigado a assistir à aula se não quiser. Maaaaaaaas… com uma condição: nada de celular, tablet ou TV até 15h.

Summerhill aposta no aspecto motivador do não fazer nada. A ideia é que, com o tempo, a criança se sinta desafiada pelas observações da natureza (construir coisas e brincar na linda área verde está liberado) e decida entrar na aula para explorar suas inquietações (também tem isso: os alunos escolhem os projetos que querem desenvolver). Imagino que deve ser aflitivo para os professores num primeiro momento. Mas, quando o aluno vem, ele chega por vontade própria, numa adesão muito mais potente, com uma outra relação com o saber.

Minha intenção com Luiza foi bem mais simples: queríamos apenas conversar. Quem disse que isso não educa ao menos os afetos? Combinamos de repetir nosso passeio toda semana. Espero que a gente consiga.

Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.

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