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O que a web conseguiu – e onde falhou miseravelmente

ECOA

18/11/2019 04h00

A internet, hoje, já é uma senhora madura. Completa meio século de vida. Suas filhas mais famosas, as redes sociais, enveredam pela adolescência. Se considerarmos a data de criação do Orkut, 2019 marca a festa de 15 anos desses ambientes virtuais. Foi tudo rápido e muito intenso. O celular e a banda larga as tornaram onipresentes, uma extensão da própria vida – para alguns, a vida em si. Tempo curto e suficiente para arriscar alguma resposta à pergunta pueril: fizeram bem ou mal à humanidade? 

É verdade que muita coisa deu errado. A epidemia de fake news veio para ficar, a polarização social e a decadência da democracia deve muito às bolhas geradas pela inteligência artificial que controla o que vemos na tela do celular. Também as ameaças à privacidade são um enrosco que já incomoda – e ainda nem começou a mostrar seus efeitos mais danosos. Hoje, há motivos de sobra para amaldiçoar as redes. 

É um erro, porém, dar a impressão de que elas são responsáveis por toda a miséria passada, presente e futura existente sobre a Terra. As redes serviram para unir muita gente, criar afetos, visibilizar causas, encurtar tempos e espaços na comunicação. A democratização da informação, tanto no acesso quanto na produção, não encontra paralelo na história. E a cultura da colaboração – penso sempre na Wikipedia como exemplo — produziu coisas grandiosas que fizeram evoluir a vida de muita gente. Em escala reduzida, materializou-se a ambição otimista e ingênua – numa palavra, utópica – dos pioneiros da web: em seus recantos mais brilhantes, a senhora madura e suas jovens filhas são a morada da inteligência coletiva, onde se contribui para resolver os problemas do universo para todos e cada um. 

Mas nesse olhar encantado há ao menos uma promessa não cumprida, um aspecto em que a web falhou miseravelmente: é impossível discutir na internet e nas redes sociais.

A idealizada imagem de uma arena virtual civilizada para o debate público nunca se concretizou. No máximo construíram-se circos, ringues de luta no gel ou as duas coisas ao mesmo tempo. Aqui e ali se encontram oásis em que se pode conversar sem a tensão de tomar um golpe abaixo da cintura e precisar partir para o revide. Mas são sempre ambientes em que as pessoas pensam mais ou menos da mesma forma. Reflita um pouco: você já encontrou algum lugar na web em que gente que raciocina diferente – mas diferente MEEEEEEESMO -, consegue trocar uma ideia de boa, em paz, aprendendo com o interlocutor?

Se encontrar, me avise. O fracasso tem múltiplas causas (vamos falar um pouco sobre elas a seguir), mas desemboca sempre numa única consequência: a desumanização. As possibilidades de diálogo se anulam quando não enxergamos um interlocutor dotado das mesmas características que nós: uma pessoa de carne e osso com família, amigos, sonhos, conquistas e problemas concretos. Em resumo, alguém que, em outra circunstância, poderia ser eu ou você.

As redes sociais não favorecem essa percepção. Ao retirarem a corporeidade do jogo, reduzem o ser humano a imagens e escritos numa tela. Uma coisa, portanto – digamos, um abajur. E aí é muito mais fácil ofender um abajur do que alguém ao seu lado, com sua presença física concreta, cheiros, tons de voz etc. Isso muda tudo: o extinto programa CQC tinha um quadro chamado "Fala na Cara", de nome autoexplicativo. Ao repórter, o entrevistado soltava cobras e lagartos sobre um Fulano que, no fim da conversa, aparecia pessoalmente em cena. Convidados a repetir os impropérios ao vivo, os valentões performáticos, invariavelmente, afinavam.

Pode-se lembrar da complexidade humana no calor de um debate pela internet. O problema é que muita gente não sabe como. Há uma falsa crença de que o diálogo seria uma coisa intuitiva, cuja prática exigiria apenas de um pouco de bom senso. Não é verdade. Entendido como ferramenta, o diálogo é um processo de análise situacional e autoanálise constante. Contempla uma série de técnicas — as da comunicação não-violenta são as mais conhecidas, mas não as únicas — para favorecer a escuta empática e a fala assertiva. 

É raro que uma interação em que os lados discordam não termine como uma relação de dominação/submissão. O diálogo tenta quebrar essa hierarquia com um objetivo simples e dificílimo: deixar que cada um conte sua história e seja compreendido. O ditado "é conversando que a gente se entende" só vale se o tal entendimento significar algo como: "agora conheço as causas e circunstâncias do pensamento dessa pessoa. Se estivesse passando por um contexto semelhante, é possível que eu também pensasse assim". A busca por um acordo não é uma meta imprescindível. Em muitos casos, pode ser desnecessária. O diálogo é ponto de partida, não de chegada.    

Não somos educados a encarar o diálogo como ferramenta a ser aprendida. Pior: nas redes, o que se vê é uma valorização de posturas polêmicas e da lógica do enfrentamento. Pouco a pouco, vamos aprendendo que a função de um debate é ganhar do adversário, se possível aniquilá-lo de forma humilhante, para poder editar um vídeo com os oclinhos da opressão e amplificar a execração pública via YouTube. A cultura da lacração se torna padrão-ouro de influência nos algoritmos e produto de exportação para o mundo offline. Duvida? Assista por alguns minutos as discussões na CPMI de Fake News, no Congresso Nacional. Lacre atrás de lacre, pronto para upload. Não por acaso, vários dos parlamentares hoje são influenciadores digitais.

Mudar essa situação passa, obviamente, pela educação, trazendo a questão da comunicação interpessoal para o centro dos currículos da escolarização básica. Mas também exige repensar a estrutura de poder na internet. A maioria das plataformas é dominada por grandes corporações, que derivam seu poder de audiências gigantescas. É cabível pensar que, enquanto imperar essa lógica, reinará a ideia do debate como luta mortal. Pensar numa conversa arrazoada é muito menos sexy, mas é o que a sociedade precisa. Não vamos chegar lá sem discutir a sério a democratização da propriedade online, como sonhavam os pioneiros.     

Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.

Rodrigo Ratier