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Rodrigo Ratier

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A real doutrinação nas escolas é religiosa

ECOA

25/11/2019 04h00

Os Ministérios da Educação e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos anunciaram a criação de um canal de denúncias para receber queixas sobre "conteúdos inadequados" em escolas.

Abraham Weintraub e Damares Alves, os dois titulares das pastas, afirmaram no Twitter que "não se trata de diminuir liberdade nenhuma, pelo contrário", mas de garantir às crianças o direito a "um ambiente fraterno, plural e sem bullying em razão de opinião, orientação sexual ou qualquer outra característica das escolas".

A conversa não para de pé. A intenção, sem muito disfarce, é defender o projeto Escola Sem Partido. Tanto Weintraub quanto Damares são entusiastas da iniciativa. Entendem que as escolas estão contaminadas pela esquerda e que os docentes são militantes partidários travestidos de professores, à espreita de oportunidades para doutrinar uma audiência vulnerável com suas ideias gramsciano-marxistas e com a "ideologia" de gênero.

É evidente que existem professores com condutas inadequadas, pelas mais variadas razões. A notícia de um educador que pediu redação sobre sexo anal a crianças de 12 anos é um exemplo dessa inadequação. O que é bem diferente de imaginar que as escolas são um antro de perversão e doutrinação esquerdista, como insinuam os titulares das pastas. O Brasil tem 45 milhões de alunos e 2 milhões de educadores. Tudo o que o Escola Sem Partido conseguiu coletar até hoje foram algumas dezenas de denúncias de condutas impróprias. Que devem, sim, ser coibidas, mas em geral a própria escola costuma ser capaz de resolver o problema. 

Não há base para achar que a suposta doutrinação esquerdista e sexista que tanto mobiliza o governo esteja, de fato, em marcha. Mas há outro fenômeno, este bem concreto, para o qual os conservadores não têm interesse em chamar atenção.

Como jornalista, cubro educação desde 2008. Já visitei escolas em pelo menos 15 estados da Federação. Uma cena recorrente, sobretudo nas escolas da rede pública, é a seguinte: no início do período letivo, as portas se abrem, as crianças formam fileiras por sala, a direção dá alguns avisos — e inicia a reza do Pai Nosso, muitas vezes acompanhada de um sermão para, como ouvi de uma gestora escolar, "abençoar o dia".

A religião está presente de corpo e alma na educação. O que é natural, pois as escolas não são ilhas. Ao contrário: reproduzem, em seu interior, as práticas sociais. Mesmo quando a instituição não oferece ensino religioso, as interações cotidianas estão impregnadas por essa relação com a fé – que, em tese, deveríamos tratar como questão de foro íntimo.

É um mundo não-oficial, mas muito concreto. A coordenadora pedagógica recomenda à mãe que o filho bagunceiro tenha "Deus no coração"; versículos bíblicos povoam os murais do pátio junto a frases de autoajuda; a professora de Artes passa desenhos da formiguinha evangélica Smilinguido para "trabalhar valores" com a turma; as festas da liturgia católica são todas comemoradas e o evento de fim de ano tem falas de padres e pastores. 

E por aí vai. Nunca me esqueço de uma visita a uma escola pública no interior de São Paulo, quando fui apresentado a uma turma de 5º ano da seguinte maneira:

— Como saudamos nosso visitante, crianças? — perguntou a professora.

— Olá, tudo bem? Jesus te ama, e nós também — responderam em coro.

Fico pensando o escândalo que seria se, em vez de usar o nome de Cristo, as crianças gritassem "Lula Livre" ou "O capitalismo é roubo". Enfim: por estar tão presente no dia a dia, a influência da religião acaba naturalizada no espaço escolar. Questionei muitas diretoras sobre o ritual do Pai Nosso e a resposta que ouvi, invariavelmente, era que se tratava de uma "oração neutra". O que não é verdade — e que, junto com as outras práticas aqui descritas, ferem as leis.

Segundo a Constituição, o estado é laico (neutro em relação às religiões). Para a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), estão vedadas todas as formas de proselitismo (empenho para converter alguém). E a disciplina de ensino religioso, embora possa ter caráter confessional (fundamentada sobre os valores de uma religião específica), é facultativa (quem não quer não precisa frequentar a aula).

Será que Damares ("O Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã") e Weintraub ("Eu sou a pedra que o rei Davi pegou do chão, colocou na funda e jogou para derrubar Golias") têm algum interesse em discutir a relação escola-religião?  Não me parece que o novo canal será usado para denúncias de práticas inadequadas nesse campo. 

Aliás, nem penso que seja o caso, para este ou qualquer outro assunto. A lógica da denúncia-vigilância-perseguição não faz parte do circuito da educação. A escola e a comunidade precisam encontram seus caminhos — pedagógicos — para solucionar seus desafios. O tal professor da redação equivocada, por exemplo, foi afastado pela direção. 

De todo modo, se Weintraub desejar controlar o acesso a algum tipo de conteúdo nocivo, poderia começar pelo próprio Twitter. No intervalo de uma semana, disse a um internauta que "a concorrência para ser o MAIS BABACA na sua família deve ser enorme" (garrafais do autor); afirmou que sua cadela é comunista por apresentar "mau hálito, sem dente na boca, analfabeta, balança o rabo por um pedaço de mortadela, toma um banho por semana, é capaz de roubar (no caso, comida), baba etc."; chamou a mãe de uma comentarista de "égua sarnenta e desdentada"; classificou jovem como "mistura de tatu com cobra" e recomendou "passar veneno para pulgas". Difícil acreditar que alguém com esse nível de incivilidade seja ministro. Pior, da Educação.

Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.

Rodrigo Ratier