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Ódio aos especialistas é desejo de vingança

ECOA

06/01/2020 04h00

Há alguns meses, publiquei aqui no blog o artigo "Para especialista, política de alfabetização do MEC é retrocesso". Não me surpreendi quando alguns comentários foram na seguinte linha (a transcrição do que apareceu é literal):

"Nem li após saber que é especialista."

"Por causa desses """"especialistas"""" o Brasil está um caos."

"Haahahahaahahhhaa desde quando especialistas sabem alguma coisa? faça me o favor. !"

Jair Bolsonaro teve votos em todos os estratos sociais. Sua base de apoio, porém, concentra-se numa faixa acima da miséria, uma baixa classe média que pouco ganhou nas últimas décadas.

Do ponto de vista econômico, ficou estagnada assistindo, de um lado, a uma parcela da população sair da miséria; de outro, aos ricos multiplicarem sua renda (muito mais isto do que aquilo, de modo que o resultado é a ampliação da desigualdade). Do ponto de vista cultural, foi desprezada pelos movimentos identitários, tachada (muitas vezes com razão) de retrógrado, racista, machista, homofóbica etc.

Com o passar do tempo, essa turma foi se tornando, no dizer de um dos poetas que eles odeiam, um pote até aqui de mágoa. Depois de apanhar por todos os lados, veio a gota d'água: chegou Bolsonaro, falando as coisas que fala e provocando um supermatch no Tinder político. Forjou-se uma nova identidade, real e massiva, que se convencionou chamar de nova direita brasileira. Não é um conjunto de pessoas homogêneo. Para simplificar, vamos falar do modus operandi do grupo mais numeroso, o bolsonarista.

Um dos elementos centrais do bolsonarismo é o ódio. Ódio pela cultura, meio ambiente, indígenas, feminismo, cotas, movimentos sociais, comunistas (que já somos quase todos) – e, tema deste texto, grande ódio por especialistas. Para essa parcela do espectro político, os assim denominados devem ser descartados por elitistas e, principalmente, ideológicos.

Há muitos significados para ideologia. Um deles é o de "conjunto de crenças e pontos de vista sobre o mundo". Nesse sentido todos seríamos ideológicos – temos "lentes" que nos fazem enxergar a realidade de formas diferentes. Mas há um outro significado. A nova direita utiliza o termo como sinônimo de falsa consciência, visão deformada do mundo. É uma acepção pejorativa, mas possível. A ironia é que se trata de definição proposta por… Marx, justamente um dos belzebus dos neoconservadores.

Chego ao ponto que me interessa discutir: diante da recusa aos especialistas, o que a nova direita propõe no lugar?

Ouve-se um clamor difuso por uma volta a um passado de lei e ordem. Passado mítico, porque situá-lo concretamente desnudaria a farsa do "no meu tempo era melhor" (não era). Grita-se pela desregulamentação da vida: menos Brasília e mais Brasil, deixem em paz os homens de bem, os pagadores de impostos; pela segurança, ao que o governo vem respondendo (e sendo correspondido) por uma licença para matar; pela moral e bons costumes, pelo respeito à família tradicional heterossexual e monogâmica.

É verdade que tudo isso se escuta. Mas não passa de um cochicho frente ao urro que exige, organiza e festeja a destruição dos inimigos. Basta comparar a quantidade ínfima de tempo que os bolsonaristas passam propondo alguma coisa versus a eternidade atacando os cada vez mais numerosos adversários.

Precisamente aí é que está a coisa: o homem comum capturado pela nova direita bolsonarista já não quer melhorar, só quer vingança. O que o move não é a promessa de evolução de vida. Sua razão de ser é identificar em terceiros as responsabilidades por seu próprio fracasso. E aí arquitetar e comemorar sua implosão.

Assim, os críticos não propõem a substituição do saber científico por qualquer alternativa. Nem por seu antípoda, o irracionalismo, nem por pseudociências como a astrologia, como poderia se supor por afinidade ideológica. O desejo é apenas e tão somente que os especialistas se estrepem.

A imagem distópica do Brasil do futuro é dos prejudicados de ontem com os prejudicados de hoje abraçados no fundo do poço. Jair Bolsonaro é a metonímia desse desejo de aniquilação. A seu favor, registre-se que sempre foi transparente a esse respeito: elegeu-se prometendo quebrar o sistema. Eleito, afirmou que há muito para destruir antes que se construa alguma coisa. Se o campo da construção é um conjunto vazio (ou você é capaz de dizer qual o projeto de país do presidente?), o do extermínio tem alvos fartos.

Algumas obviedades sobre os especialistas: sua autoridade para falar sobre determinados assuntos reside no fato de os terem estudado e pesquisado, por vezes, ao longo de toda sua vida profissional. É claro que se pode contestar sua sabedoria e a validade de suas observações se houver evidências em contrário. Muito diferente disso é refutar sua opinião pelo simples fato de serem especialistas. Deve-se atacar o argumento, não o argumentador.

Dizer tudo isso não significa ignorar as dores dos que hoje optam pelo bolsonarismo. É preciso ouvi-las, entender suas razões de ser e reconhecer, ao menos em parte, sua validade. Seria um primeiro passo para propor alternativas construtivas, em sentido oposto ao desejo de vingança. Os especialistas podem ajudar, e muito, nessa tarefa.

Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.

Rodrigo Ratier