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Todos podem ter vida digna já, diz criador do Fórum Social Mundial

ECOA

20/01/2020 04h00

Outro mundo ainda é possível? Diante da trajetória recente do Fórum Social Mundial (FSM), cabe perguntar se seu slogan segue fazendo sentido. O evento, que em 2005 chegou a ter mais de 150 mil participantes e 2.500 atividades para discutir e propor a "transformação social global", diminuiu de visibilidade e frequência — sequer houve edição no ano passado. Uma tentativa de reinvenção começa na terça-feira, dia 21, com o Fórum Social das Resistências (FSR), em Porto Alegre. O evento temático faz parte de um processo de mobilização para o próximo FSM, previsto para 2021 na Cidade do México. Os organizadores esperam um público de 5 mil militantes. 

"Outro mundo ainda é possível", responde Oded Grajew, idealizador do Fórum Social Mundial. Israelense naturalizado brasileiro, Grajew é referência no chamado terceiro setor. Criador da empresa de brinquedos Grow, que deixou em 1993, esteve ligado ao nascimento de diversas entidades de responsabilidade social: Fundação Abrinq, Instituto Ethos, Movimento Nossa São Paulo. Em 2003, foi assessor especial do então presidente Lula. Hoje, afastado de funções executivas, é presidente do conselho deliberativo da Oxfam Brasil, ONG que estuda a desigualdade social. "Seria possível acabar com a desigualdade no Brasil hoje", diz. "É preciso um projeto de país e aplicar recursos aplicados nas prioridades corretas, como fizeram as nações escandinavas". Grajew, que estará em Porto Alegre para participar do FSR, concedeu a seguinte entrevista ao blog:

Recentemente, você passou uma temporada na Suécia, um dos países líderes em igualdade e desenvolvimento humano. O que você aprendeu por lá sobre combate à desigualdade?

Oded Grajew Primeiro, aprendi sobre aprender com outros. Falta isso nas pessoas, nas organizações, na sociedade. Há um desprezo pelo conhecimento que se adquiriu ao longo do tempo. Não precisamos começar tudo de novo, cometer os mesmos erros. Se você quiser olhar hoje em dia o que dá certo, olhe os países escandinavos — Suécia, Finlândia, Noruega. Eles lideram qualquer ranking: educação, saúde, ambiental, competitividade econômica etc. 

Muita gente diz que não se pode usar os países escandinavos como exemplo porque são pequenos e pouco populosos. 

Sempre se usa uma desculpa para não se aprofundar no conhecimento dos outros.

Qual o segredo deles?

O que que faz uma comunidade ser bem sucedida é conseguir relações harmoniosas entre as pessoas. Isso vale para comunidades pequenas e vale para um país. Nenhum país vai dar certo se você tiver relações conflituosas entre os cidadãos. Os suecos perceberam que as relações se tornam harmoniosas quando existe um sentimento de justiça entre todos. O que causa conflitos é a sensação de injustiça, de desigualdade. Você pode pegar qualquer condomínio como exemplo. Está tudo bem e aí você descobre que seu vizinho paga menos que você. Explode. A grande mudança nos países escandinavos foi cultural: confiar no político, no patrão, no sindicato, no vizinho, nos outros. 

No início do século 20, os países nórdicos eram pobres. Como conseguiram dar o salto?

Começaram com o básico: com um projeto de país, se preocupando em como o país poderia dar certo. Foi um processo intenso e não foi uma coisa que alguém comandou especificamente, mas uma preocupação de vários indivíduos e organizações. A justiça e a redução das desigualdades começaram a nortear todas as políticas públicas. É como se fosse um filtro: a política que está sendo proposta reduz ou aumenta a desigualdade? Se aumenta, é descartada. 

Qual o primeiro passo?

Educação pública de qualidade para todos. Qualidade, como eu entendo, é justamente transmitir esses valores caros à sociedade, de que não se pode subir na vida pisando em cima dos outros. Também é fundamental uma representação política que espelhe o país. Quantas mulheres existem na sociedade? Metade? Tem que ter metade no parlamento. Idosos? Pobres? Vale o mesmo raciocínio. E transparência. Quando tem transparência, você confia. A confiança nos países escandinavos se deu porque se adotou a transparência total como parte da redução das desigualdades

Mas reduzir a desigualdade exige que os ricos se reconheçam como privilegiados e abram mão de parte de seus benefícios. 

A mudança não virá dos ricos. Não adianta esperar que os privilegiados liderem o processo. A transformação vem do povo, da sociedade. Nos países escandinavos, a igualdade foi conquistada, também houve enfrentamento. A questão é que não foi um enfrentamento violento: houve bom senso dos mais privilegiados de aceitar a redução da desigualdade. Mas a iniciativa não partiu deles. Às vezes, acontece como aconteceu lá, de uma forma mais pacífica, mas em alguns países há sangue. É o caso do Brasil.

Estamos vivendo um período revolucionário no Brasil? 

Estamos em luta. São 70 mil assassinatos por ano. Não há guerra no mundo em que se mata mais do que aqui. Estamos no meio dessa revolução sangrenta para se ter mais justiça. Não é uma guerra declarada, mas é uma guerra diária. Em sua maioria, as vítimas são negros e pobres. Essa é a nossa realidade.

Se fosse possível reduzir a desigualdade de uma hora para a outra, todos no Brasil teriam condições de uma vida digna hoje?

Sim. O Brasil tem a nona maior economia do mundo. É um país rico. Quem quiser resolver a desigualdade tem todos os recursos, o que não seria a situação de alguns países africanos, por exemplo, que têm poucos meios. A questão, aqui, é que grande parte dos recursos públicos são apropriados pelos mais ricos. Não só por corrupção, mas por juros, concessões, desonerações, benefícios fiscais. Aí surgem situações impensáveis. O ex-presidente da Vale [Fabio Schvartsman], demitido depois do desastre de Brumadinho, ganhava quase 2 milhões de reais por mês. Qual o sentido disso? 

O orçamento público atual comporta qualidade adequada para os serviços sociais?

Sim. Com transparência total, seria preciso mostrar para onde vai o dinheiro. Abrir a caixa preta dos orçamentos para além do orçamento geral: esmiuçar ponto a ponto quanto se investe em cada tipo de atividade. E, aí, eleger necessidades. O que que se prioriza? O que se deixa de fazer? Eu nasci em 1944 em Israel, que na época ainda era a Palestina. A situação era muito dura. Faltava de tudo, racionava-se comida etc. Mas o país fez uma aposta de que, para as crianças, não poderia faltar nada. Hoje, Israel é um país com alta renda per capita e de excelência em educação e tecnologia.

Como avalia as ações do governo atual na redução da desigualdade?

O tema desigualdade não entrou no discurso de nenhum candidato a não ser o [Guilheme] Boulos [candidato pelo PSOL], que teve menos de 1% dos votos. Ao eleger Bolsonaro, na última eleição, a sociedade escolheu exatamente a rota contrária. É um governo que não fala em combate à desigualdade e que prega a eliminação de quem pensa diferente, a retaliação, o combate.

Há alguma medida correta sendo tomada? 

Acho correta a baixa de juros, que reduz a dívida pública. Também acho que a reforma fiscal e tributária, se for progressiva, no sentido de taxar lucros e dividendos e de cobrar mais de quem tem mais, está no caminho correto. 

De sua experiência com organizações da sociedade civil, quem você acha que poderia levar adiante essa mudança cultural necessária para acabar com a desigualdade?   

Movimentos que incluem os cidadãos que são os perdedores. Jovens de baixa renda, negros e, principalmente, mulheres. Acredito que a mudança virá principalmente das mulheres, que são muito mais preocupadas com a construção de processos que levem a um futuro melhor. É muito angustiante você presenciar tudo o que está acontecendo no Brasil, mas é muito menos angustiante se você estiver participando do processo de mudança. Não é a maioria, mas há muita gente trabalhando para que haja transformações.

Você está otimista ou pessimista em relação ao Brasil atual? 

Acho que se sentir otimista ou pessimista depende da expectativa que se tem. Se você tiver expectativa que as coisas vão mudar a curto prazo, você vai se frustrar. Eu acho que esse processo de mudança é um processo para duas gerações. Agora, isso não impede as pessoas de acreditarem que é possível entrar no caminho da mudança já. Não necessariamente vão ver a mudança, vão ver ganhos porque o Brasil é um país grande e há exemplos localizados bastante animadores. Se você sabe que é um processo longo, se você tem uma expectativa mais realista, os primeiros passos podem ser bastante gratificantes. Acho que o Brasil vai entrar nesse processo infalivelmente, porque do jeito que está é insustentável. Quanto mais cedo, melhor. 

Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.

Rodrigo Ratier