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Caso Patrícia: 20 estratégias bolsonaristas de difamação

ECOA

13/02/2020 13h32

Convocado a uma CPMI no Congresso, um cidadão enfileira mentiras e ofensas públicas contra uma jornalista. Não apresenta qualquer prova do que diz, mas isso não importa: seu testemunho é o suficiente para pôr em marcha uma máquina de destruição de reputações, mobilizada por apoiadores diretos do presidente Bolsonaro e alimentada por engodos e malabarismos de linguagem. 

O surrealismo é enojante, e a sensação de impotência, paralisante. Estratégias como a checagem de fatos têm se mostrado pouco eficazes — vivemos numa época pouco afeita ao racionalismo. De todo modo, ainda são um serviço de inestimável valor — e serão mais ainda no dia em que as pessoas hoje envoltas numa espécie de emocionalismo hipnótico começarem a cair em si. Também parece importante desvelar, mesmo correndo o risco de certa repetição, as falácias de lógica e de retórica utilizadas por essa turma. 

O episódio de ataque à jornalista Patrícia Campos Mello mobilizou uma série delas. Investigo o WhatsApp de mais de 30 grupos bolsonaristas. Entre ontem e hoje, recolhi dezenas de peças ofensivas à repórter e procurei analisar os recursos discursivos mobilizados. Contei 20, expostos abaixo. Em respeito ao leitor e à leitora e, principalmente, às vítimas, não incluí neste texto imagens ou links para os ataques virtuais. Tenho, caso seja necessário, os prints arquivados para documentação:

1- Mentira A mãe de todas as táticas. Na condição de testemunha da CPMI, Hans Nascimento, ex-funcionário da agência de marketing digital Yacows, mentiu à CPMI. Está sujeito a representação no Ministério Público por falso testemunho. Em reportagem, a Folha de S. Paulo desmentiu rapidamente as alegações e insultos, com extensa documentação comprobatória (vídeos, prints de Whastapp, planilhas enviadas pelo depoente etc.).

2- Apelo à emoção Os desmentidos surtem pouco efeito na base de apoio bolsonarista. Num cenário de polarização, sabe-se que as paixões e preferências subjetivas têm mais importância na formação de opiniões e tomadas de decisão do que os fatos concretos. Essa é, aliás, a definição de pós-verdade. Com os sentimentos à flor da pele, é mais fácil que as pessoas se tornem "presas fáceis até de um trapaceiro pouco inteligente", como nos lembra Carl Sagan, um dos mais célebres divulgadores da ciência, no livro O Mundo Assombrado pelos Demônios.  

3- Argumento de autoridade Numa ação aparentemente orquestrada, as mentiras e insultos de Hans Nascimento foram prontamente replicadas por parlamentares a suas bases digitais. A mais visível dessas figuras, como se sabe, é Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente. Mas houve peças assinadas por outros personagens, como os deputados federais Paulo Eduardo Martins (PSC-PR), Carlos Jordy (PSL-RJ), Filipe Barros (PSL-PR) e subtenente Assis (PSL-ES, candidato derrotado ao senado). O recurso à autoridade tenta conferir alguma credibilidade à fala do depoente. O raciocínio é: "se um deputado falou, deve ser verdade".

4- Obediência ao líder A ação conjunta dos replicadores apresenta poucas fraturas. Muitos dos vídeos e memes disseminados em diferentes perfis são os mesmos. O ponto de contato é a construção de uma narrativa de apoio ao presidente Jair Bolsonaro – nessa chave de leitura, a reportagem de Patrícia Campos Mello seria uma "acusação mentirosa a JB", como escreveu no Twitter o filho Eduardo. Não há espaço para críticas: a lealdade ao líder precisa ser incontestável, como pede o manifesto do futuro partido do clã, o Aliança pelo Brasil.

5- Evidência suprimida Construção estilística em que um elemento importante para a comprovação da veracidade está ausente. Um card do movimento Avança Brasil traz o seguinte texto (a grafia original foi mantida): "MULHERES JORNALISTAS ASSINAM MANIFESTO EM APOIO A REPÓRTER DA FOLHA INSULTADA NO CONGRESSO. AGORA FALAR A VERDADE VIROU INSULTO!". Faltou dizer que a "verdade", no caso, é a falsa acusação sexista, o que invalida a afirmação.

6- Mobilização de preconceitos O caldo de cultura da sociedade é repleto de manifestações como misoginia, racismo e homofobia. O medo é um poderoso mobilizador desses preconceitos arraigados, convocados sobretudo em momentos de crise, como lembra a psicóloga Vera Iaconelli: "Quanto tempo desperdiçado, quando estrago — por vezes irreparável — se dá quando nos deixamos levar pela emoção sem a mínima reflexão". 

7- Misoginia O ódio, desprezo ou preconceito contra mulheres emergiu com toda a força em cards espalhados pelo WhatsApp, que qualificavam a jornalista da Folha como "prostituta" ou "puta", sem meias palavras. Uma realidade cotidiana que ganha contornos amplificados com a sessão pública no parlamento, como afirma Mariliz Pereira Jorge: "Assédio sexual e moral e insultos são expedientes comuns em nossas vidas. Todo dia alguém nos chama de puta, mas não no Congresso". Patrícia só sofre essa natureza de ataque porque ser mulher.

8- Ridicularização A zombaria e exposição de uma pessoa ao ridículo incluiu, no caso de Patrícia, humor chulo e manipulação de imagens. Cards no WhatsApp trouxeram fotos da jornalista gritando, fazendo careta ou em montagens como garota de programa. Trocadilhos maldosos com a palavra "furo" também foram constantes.

9- Falsificação histórica Pedra angular do bolsonarismo, a cruzada contra a imprensa recebeu uma bizarra releitura num post no WhatsApp com o seguinte teor: "não é só a repórter da Folha que já se envolveu com prostituição, o jornalismo brasileiro infelizmente é farto nesses exemplos". Segue-se uma lista de "casos", todos oriundos de acusação sem provas, destinados a "provar" o suposto pareamento entre jornalismo e prostituição. Como afirma o historiador Fernando Nicolazzi, da UFRGS, a intenção de reescrever a história costuma ser frequente em projetos totalitaristas de poder.

10- Intimidação Não são poucas as pessoas que se calaram depois de campanhas difamatórias. O chamado "assassinato de reputação" visa tirar pessoas da arena pública por medo de represálias, sejam virtuais ou reais. Patrícia vem sendo alvejada por "tempestades de merda" (ver item 20, "shitstorm") desde a divulgação das reportagens sobre envios maciços de WhatsApp contra o PT, em 2018. Até agora, mantém-se firme. Outros menos resilientes ou experimentados já poderiam ter saído de cena ou adoecido. Novamente, como explica Mariliz Pereira Jorge em sua coluna na Folha: "Dizer que uma jornalista ofereceu sexo em troca de informação é uma violência, uma tentativa de intimidar e calar não apenas ela, mas todas nós que trabalhamos na área". 

11- Cortina de fumaça A ideia é usar um assunto para desviar a atenção de outro, mais grave e importante. O debate político registra o uso cada vez mais comum do termo inglês fire hosing, que designa uma grande quantidade de mensagens transmitida rapidamente sem que se considere sua consistência ou veracidade. Conforme registra Roberto Dias em sua coluna na Folha de S. Paulo: "Se alguém enxergar aqui uma estratégia de comunicação, poderá concluir que a mentira de Hans tira do foco a busca pela verdade sobre a morte do miliciano Adriano [Nobrega, ligado a Flavio Bolsonaro]".

12- Ad hominem A expressão latina indica a conhecida tática de atacar o argumentador, não o argumento. A série de reportagens que revelou os disparos em massa contra o PT pelo WhatsApp se sustenta pelas evidências documentais e pela multiplicidade de fontes entrevistadas. Em vez disso, o que foi colocado em questão na campanha difamatória era a personalidade da jornalista, como no seguinte texto de card (a grafia original foi mantida): "CONTRATAR MILITANTES E JUMENTOS PARA ESPALHAR MENTIRAS, JÁ É VERGONHOSO, MAS LEVAREM JORNALISTA A AGIREM NESSE NÍVEL, É O FIM!!!".

13- Seleção das observações Tática conhecida e utilizada sobretudo em vídeos no Youtube, consiste em escolher trechos que visam favorecer um personagem e prejudicar outro. O filósofo Francis Bacon nomeou essa estratégia como "contar os erros e esquecer os fracassos". A sessão da CPMI foi resumida em vídeos editados como "Hans River desmontando a narrativa da esquerda" ou "A esquerda passou vergonha".

14- Dissonância entre título e vídeo Variação da falácia anterior, ocorre quando atribui-se um título bombástico ("Deu PT na CPI das fake news") a um conteúdo como a íntegra do depoimento. Aposta-se que a maioria dos internautas não vão assisti-lo, contentando-se apenas com a chamada principal.

15- Sensacionalismo Uso de termos, construções textuais, visuais ou sonoras para exagerar a cobertura de determinado assunto, com o objetivo de chocar a opinião pública e, assim, ampliar a audiência. São exemplos o recurso a palavras fortes, letras maiúsculas, expressões bombásticas e exclamações. Em vídeos no youtube, o depoimento de Hans Nascimento recebeu os seguintes títulos (a grafia original foi mantida): "URGENTE! Ex-funcionário mostra como funcionava o esquema para o PT de ROBÔS PARA MENSAGENS EM MASSA".

16- Exemplar saliente Consiste em destacar um exemplo aberrante, fora da curva, e apresentá-lo como se fosse o comportamento médio ou representativo de um grupo. O site Senso Incomum apresenta texto atribuído a Carlos de Freitas, aparentemente de caráter humorístico (ainda que não haja qualquer indicação explícita dessa natureza, o que mascara a intenção do emissor): "Jornalismo da Folha é tão verdadeiro quanto tênis Mike vendido na 25 de março, diz leitor". O "leitor" em questão contrasta, por exemplo, com a ampla maioria de opiniões contrárias ao ataque e em defesa da reportagem apresentadas no Painel do Leitor de hoje.

17- Inversão do ônus da prova  Ocorre quando quem acusa não prova o que afirma. Ao contrário, exige que a vítima negue a afirmação. O título de texto do site 'presidentebolsonaro.com' ("Jornalista ofereceu sexo em troca de informações para matéria contra Bolsonaro durante campanha") se aproveita dessa estratégia — e ainda omite que se trata de depoimento sem evidências (na verdade, invalidado pelas evidências) e não de verdade inconteste.

18- Distorção Na sessão, Hans Nascimento acusou Rui Falcão (PT-SP) de racismo, ao supostamente tê-lo chamado de "favelado". A menos que houvesse registro do diálogo, que Hans classificou como "conversa ao pé do ouvido", a afirmação é impossível de ser testada (ver item 17, "inversão do ônus da prova"). O petista precisou se defender: "Eu não chamei o depoente de favelado, não o discriminei, perguntei onde morava. 'Leopoldina do Rio ou de São Paulo? Você conhece outros bairros da periferia onde eu fiz campanha?". A negativa não impediu que se produzisse vídeo no Youtube com o título "Ex presidente do #PT, Rui Falcão, chama depoente de favelado". 

19- Mover a trave Falácia explicada pelo jornalista Pedro Burgos em um fio no Twitter, consiste em ir mudando o foco da discussão ("mover a trave") até que o adversário possa dizer que "marcou o gol". Burgos exemplifica: a bolha bolsonarista começou comprando a acusação misógina. Com o desmentido, passou a dizer que as provas que a Folha apresentou em reportagem eram forjadas. Houve novo desmentido, e o debate derivou para uma suposta falta de provas em outra reportagem — a original, de 2018.

20- Shitstorm Literalmente, "tempestade de merda", na expressão do filósofo Byung Chul-Han no livro No Enxame. Consiste em "chamar à ação", como se diz nos meios digitais, uma horda para agendar determinado tema. Em geral a operação envolve ataque a alguma personalidade e se materializa com hashtags. Entre ontem e hoje, circulou nos grupos bolsonaristas o seguinte chamado (a grafia original foi mantida): "URGENE! CORRUPTOS ESTÃO APAVORADOS. SUBIR JÁ! TAG #PTusouWhatsappemCampanha. COPIE e COMPARTILHE NO GRUPOS E REDES SOCIAIS".

Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.

Rodrigo Ratier