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Rodrigo Ratier

Campanha da Uber por respeito é só fantasia de Carnaval

ECOA

20/02/2020 04h00

Neste Carnaval, o Uber pôs o bloco na rua com uma campanha, segundo a empresa, para "reforçar o respeito". Por meio de outdoors, anúncios digitais e mensagens aos usuários, pretende atacar o assédio e a discriminação. Reforça que esses comportamentos não são aceitos pelo código de conduta da empresa.

São causas inegavelmente justas as chamadas pautas identitárias. Ocorre o seguinte: aprende-se basicamente pelo exemplo. De nada valem palavras bonitas e defesa eloquente de bandeiras corretas se suas práticas não condizem com o que você prega. Respeito é precisamente o que falta na relação da Uber com seus "motoristas parceiros".

O eufemismo merece aspas porque designa, na verdade, trabalhadores e trabalhadoras em jornadas muitas vezes estafantes, sem que se reconheça qualquer vínculo empregatício por parte da empresa. 

À espera de que o algoritmo lhes atribua alguma corrida, boa parte tem metas — muitas vezes inatingíveis — a bater. Todos se submetem à avaliação do consumidor, com estrelinhas que supostamente aferem a qualidade do serviço, incluindo carro, condutor e forma de dirigir. Se houver benevolência, pode-se dar gorjeta.

A sharing economy poderia ter incentivado a solidariedade e o compartilhamento. Mas num contexto de crise em que ser empreendedor de si mesmo é o único trabalho disponível, o resultado é um misto de baixos salários, rotinas estressantes, culto à performance e um esgarçamento das relações de trabalho simbolizada em uma palavra que, não por acaso, recebe o nome da empresa: uberização.

A Uber diz que não tem nada com isso. Escorada no argumento da neutralidade da tecnologia, afirma que o aplicativo nada mais faz do que "possibilitar bilhões de conexões entre pessoas no mundo todo".

Faltou dizer: cobrando uma taxa variável que pode superar 25% por corrida. E sem assinar carteira, depositar FGTS, férias, 13º salário e outros direitos de empregados.

Sim, empregados. Porque estipular um preço pelo serviço, controlar a jornada de trabalho do "colaborador" via algoritmos e punir supostas falhas configura vínculo empregatício. De acordo com alguns tribunais no Brasil, Europa e Estados Unidos, essa é uma leitura possível, embora não seja o entendimento do Tribunal Superior do Trabalho por aqui.

No jargão do marketing, o termo brandwash (literalmente, "lavagem de marca") designa mudanças cosméticas — nome, cor, logotipo, campanhas institucionais etc. — levadas a cabo pela publicidade para desviar o foco de problemas anteriores da organização. Parece ser o caso em tela, e longe de ser exceção.

No mundo em que o que importa é a fantasia, o cortejo é volumoso: quem combate a obesidade é o McDonalds, quem incentiva a parar de fumar é a Philip Morris, quem fala de educação financeira são os bancos, quem ensina sobre respeito é a Uber. Na vida real, ajustar as práticas aos discursos dá muito mais trabalho.

Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.