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Coronavírus: O desafio cotidiano de manter a serenidade em meio ao caos

ECOA

13/03/2020 04h00

Algo que assusta sem motivo determinado, medo súbito que pode provocar uma reação descontrolada de um indivíduo ou de um grupo. A definição do Houaiss para pânico inclui ainda reveladora etimologia: a palavra remete ao deus grego Pã, protetor dos rebanhos e pastores, a quem se atribuía os misteriosos ruídos noturnos das florestas trevosas. Nas selvas tenebrosas do Brasil dos últimos dias, Pã abandonou as matas, comprou um smartphone e hoje esfola o polegar de tanto encaminhar mensagens de conteúdo alarmista no WhatsApp sobre o coronavírus. O temor infundido por causas ocultas… esse segue o mesmo.

Não se trata de falar em "fantasia", como fez Bolsonaro, uma absoluta impropriedade. A situação se deteriorou rapidamente e o prognóstico — que é a suposição baseada em dados da realidade — aponta para semanas, talvez meses, difíceis no Brasil com o avanço da pandemia. Tudo indica que haverá uma travessia a ser feita — e a questão parece ser como realizá-la sem desespero ou exaltação excessiva.

Há uma ligação estreita entre pânico e medo. O medo é a nossa reação a uma agressão, define o italiano Giulio Cesare Giacobbe, fundador da psicoterapia evolutiva. A coisa complica porque quem decide o que é agressão não é realidade concreta, mas nosso filtro cognitivo. Para dizer de outra forma: sentir medo ou não depende da interpretação da realidade. E isso é uma questão totalmente pessoal.

Se a agressão é real, está certo ficar com medo, pois ele nos leva a reagir. Se vejo um tigre de verdade na minha frente, corro. Mas e se o medo é imaginário, e se o tigre for de papel? Com seu estilo provocador e um tanto mal-educado, Giacobbe vai definir o medo imaginário como uma masturbação mental, nosso maior inimigo ("O medo é a única coisa que pode arruinar nossa vida maravilhosa", diz).

Trata-se, então, de definir se o medo é real ou imaginário. "Todas as vezes que você não tem materialmente na sua frente aquilo que lhe dá medo, é um medo imaginário", afirma Giacobbe. Convenhamos que, no caso de um inimigo invisível a olho nu como o coronavírus, essa obviedade não nos ajuda muito. O psicólogo italiano refina um pouco mais a explicação ao recorrer ao exemplo do medo de avião: é possível que o voo em que vou embarcar se espatife? Sim, é possível — mas o conjunto de coisas possíveis é infinito. "Se queremos fazer uma previsão, não devemos recorrer ao possível, mas ao provável. Como fazem as companhias de seguros. As probabilidades de queda de um avião são infinitesimais", ressalta.

Talvez uma boa guia para manter a serenidade nos dias que virão seja uma combinação das duas definições: o que é real e o que é provável. Primeiro, o foco no provável pode ajudar no discernimento do que é realmente preciso fazer agora. Em que pese a desinformação e as fake news, há toneladas de ótimo e confiável material sobre a doença, formas de prevenção, taxas de contágio, situações de risco e grupos vulneráveis. Sabe-se que, no caso dos idosos, em que a letalidade é mais provável, faz sentido reforçar os cuidados tanto quanto possível. De outro lado, parecem pouco racionais comportamentos como acumular álcool gel suficiente para explodir a própria casa. Pouco racional e pouco solidário — um desafio extra que a pandemia já está trazendo é a reflexão sobre os efeitos coletivos de nossas ações individuais. Com suprimentos em baixa, se alguém estoca, alguém fica sem. Dilemas assim serão comuns em breve.

Segundo, o foco no real — o "momento presente", como virou moda dizer — pode ser útil tanto para evitar checagens excessivas, alimentadas pelo catastrofismo futuro (provavelmente não precisamos estar hipervigilantes a qualquer alteração corpórea como se fosse sintoma de coronavírus) quanto na adaptação para o período que vamos passar. Quarentenas, cancelamento de atividades, home office e a nova etiqueta de higiene respiratória podem ser aflitivas, mas também nos levam à descoberta de algo novo. Sem otimismo ingênuo, porque o momento não é para isso, encerro com um exemplo pessoal. Quando meu pai adoeceu de câncer, um amigo me disse: que bom que você vai poder conhecê-lo melhor, de uma forma diferente. De fato, no meio da dor e da tristeza, que culminou com sua morte, houve também momentos (e não foram poucos) de alegria e paz durante o processo. Acho que esses momentos aconteceram porque decidimos que mesmo com a incerteza sobre a vida, ela continuaria e nós poderíamos aproveitá-la enquanto estivéssemos bem. Meu amigo estava certo.

Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.

Rodrigo Ratier