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TV ligada ao MEC traz História preconceituosa, diz especialista

Rodrigo Ratier

16/12/2019 04h00

Crédito: Divulgação

"Nunca mais seja massa de manobra", anuncia o site da Brasil Paralelo, autointitulada "a maior plataforma de educação política do país". Na apresentação dos cursos, testemunhos de como o site mudou a vida das pessoas: "a gente foi submetido a um ensinamento muito parcial", diz uma jovem. "A história que me contaram não tem nada a ver com a história que eu estou aprendendo agora", diz outra. Em outro vídeo, a promessa de aprender mais sobre filosofia,  política, história, direito, arte, economia e cultura com "algumas das maiores autoridades intelectuais do nosso país". Fazem parte da lista o polemista Olavo de Carvalho e os deputados federais Luiz Philippe de Orléans e Bragança e Carla Zambelli, ambos da base de apoio do presidente Jair Bolsonaro.

Na semana passada, a produtora ganhou certa notoriedade ao ter um de seus documentários exibidos na TV Escola. O governo tem buscado afastar o rótulo de "TV estatal". Atualizado em 9 de dezembro, o site do Ministério da Educação informa que a emissora "chegou a fazer parte do Ministério da Educação, mas desde 2015, mantém apenas contrato de gestão com o MEC para produção de conteúdo e gestão operacional". O topo do site do canal possui link para o domínio oficial da União, gov.br, o email de contato é tvescola@mec.gov.br e, no ano passado, o canal recebeu R$ 73 milhões do MEC. Na última sexta-feira, o ministro Abraham Weintraub despejou a emissora e disse que não vai renovar o contrato com a associação responsável pela programação. O canal segue no ar, mas seu futuro é incerto.

"Ideologias perversas contaminaram o imaginário popular, causando danos incalculáveis em jovens, que hoje estão perdidos e sem norte", anuncia o apresentador Filipe Valerim, um dos sócio da produtora, antes do capítulo 2 de Brasil: A Última Cruzada, a série exibida pela TV Escola. O "antídoto", ainda segundo o vídeo, seriam os próprios documentários da Brasil Paralelo, "desenvolvidos para despertar a consciência e o patriotismo em qualquer pessoa."

Para Fernando Nicolazzi, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o conteúdo é questionável. "A série não apresenta as fontes e as documentações históricas que baseiam seus argumentos, como se espera de uma pesquisa consistente. A versão apresentada depende da narração em off e das opiniões dos entrevistados", afirma. Historiador formado pela UFPR, Nicolazzi se especializou no terreno da historiografia — ramo de conhecimento que investiga, entre outras aspectos, como a História é escrita. Em 2016, participou da fundação do Luppa, Laborátorio de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado, vinculado ao Departamento de História da UFRGS. Nos últimos anos, vem estudando as produções da Brasil Paralelo.

Segundo Nicolazzi, a visão histórica da série Brasil: A Última Cruzada, é datada, por retomar a concepção romântica dos "heróis da pátria do século 19"; distorcida, por enxergar a escravidão de uma perspectiva moralizante e não como um traço estrutural da nação; e preconceituosa, sobretudo no tratamento do islamismo e dos povos indígenas. "Enxergo um alinhamento da exibição da série com uma política de Estado, já que ministros e até o vice-presidente já expressaram visões semelhantes sobre nosso passado". Abaixo, os principais momentos da entrevista concedida ao blog:  

 

O que se pode dizer sobre a qualidade da série Brasil: a Última Cruzada?

Fernando Nicolazzi Do ponto de vista do relato histórico, eu não recomendaria a série. A produção de conhecimento histórico envolve uma série de mecanismos, de protocolos metodológicos e teóricos. É preciso apresentar fontes e documentos históricos para legitimar a narrativa, que depois precisa ser inserida num contexto de discussão — a historiografia acadêmica se faz com base no debate entre pares. São mecanismos de controle saudáveis. A série não traz as fontes e as documentações históricas que baseiam seus argumentos. A legitimidade da narrativa está ligada apenas aos palestrantes que eles escolhem — ou seja, só temos a voz da autoridade. 

Quais são os problemas específicos?

Nicolazzi Há um preconceito religioso contra o islamismo que me parece muito evidente. Por exemplo, quando vão representar a ocupação moura na Península Ibérica, fazem toda uma encenação gráfica como se fosse toda uma mancha vermelha tomando conta da península, como um banho de sangue. Outro exemplo diz respeito à sociedade indígena, que teria emburrecido nas Américas e salva com a chegada dos europeus. É bastante complicado sustentar isso tanto do ponto de vista metodológico quanto do ético. Há também distorções, como a ideia de que fascismo era um movimento de esquerda. Dentro da historiografia, há consenso de que essa é uma hipótese descartada, que nem merece ser discutida. Por fim, a visão sobre a História do Brasil é datada. Foi superada há muito tempo.

Que concepção de História é essa?

A Brasil Paralelo tem um apreço muito grande pelo século 19. Eles se guiam por uma ideologia monarquista, cristã e patriótica. É uma História baseada naquilo que se chamava "os varões ilustres da pátria". A produção fala abertamente em "grandes heróis nacionais": José Bonifácio, D. Pedro II, Leopoldina, Princesa Isabel. É muito complicado quando você produz uma narrativa meramente factualista e pautada sobretudo em figuras masculinas — com algumas poucas concessões às mulheres –, brancas, europeizadas. A gente já passou por uma série de desdobramentos no conhecimento histórico que questionaram isso. 

Que tipo de afirmação já foi contestada no debate entre historiadores?

Para ficar em uma delas: na série, a escravidão é tratada como mero fato de ordem moral, uma "mancha na história da civilização ocidental e do Brasil". Hoje, há inúmeros trabalhos de uma historiografia extremamente qualificada que mostram que a escravidão é um fato estruturante da nossa sociedade. Isso está fora de discussão. Foi estruturante no século 19 enquanto fenômeno social, político, econômico e cultural. Segue sendo estruturante porque suas consequências nós sentimos até hoje. Uma narrativa que pretenda dar conta da formação do Estado brasileiro não deveria distorcer um fenômeno tão importante. Eles estão tentando reatualizar um tipo de formulação do século 19. 

Por que essa obsessão com o século 19?

Quando você tem um futuro fechado e um presente instável, é no passado que você busca o momento de glória da nação. É como se o Império tivesse sido um momento de ordem, em que tudo funcionava no Brasil. Obviamente, não foi. Eles estão oferecendo uma mitificação terapêutica, um remédio para um contexto de crise. Como não há respaldo para isso na realidade empírica, a narrativa investe no campo dos afetos. As trilhas sonoras épicas, a voz emocionada do narrador, tudo conduz para a emotividade. Eles não dão margem para a reflexão do espectador, entregam a interpretação pronta. O esforço crítico fundamental para analisar esse tipo de conteúdo está ausente.

Essa ideia de valorizar as figuras e símbolos nacionais da monarquia apareceu recentemente em manifestações públicas do ministro da Educação, por exemplo.

Sim. Por isso, penso que se pode falar numa simbiose entre a empresa e a política do governo Federal. Essa versão está se transformando na versão governamental da História brasileira, ou seja, está virando uma política de Estado — e sem discussão pública, porque eles rejeitam a universidade e a escola enquanto espaços de questionamento. Para a democracia, os riscos de uma História única são enormes. A Brasil Paralelo se pauta em críticas ao que eles chamam de uma história enviesada por parte da esquerda, assimilando-a regimes totalitários, mas acabam fazendo a mesma coisa.

Como avaliar o fato de um canal ligado ao MEC exibir esse tipo de conteúdo?

Acho que um canal apoiado pelo Ministério tem de estar aberto a diversas narrativas e produções. O que me parece problemático é quando se situa isso no contexto mais amplo do que estamos vivendo no Brasil. Toda a estratégia dessa empresa é pautada por um ataque violento aos professores. A propaganda da série é marcada pela ideia de "desmentir o seu professor de história". Não houve boa curadoria quando se incorpora isso numa emissora voltada para a melhoria da qualidade do ensino.

Como a História lida com a questão da verdade e da imparcialidade?

Há consenso sobre a dificuldade de sustentar a ideia de uma verdade única e universal, mas isso não significa que tudo é relativo. Pode-se trabalhar com a ideia de legitimidade. A produção historiográfica que tem compromisso com a verdade deve ter mecanismos de legitimidade que a sustentem — compromisso com as fontes históricas, com a documentação, com a realidade empírica e com a história do conhecimento histórico. Há debates que já foram feitos, há narrativas que já foram contestadas porque não se sustentam diante dos mecanismos de legitimidade. 

O que dizer sobre a acusação de há uma hegemonia marxista na universidade?

Não há outro termo para utilizar: é uma mentira. Não tem o menor respaldo empírico e não se sustenta em qualquer tipo de análise. Entrei na universidade pública em meados dos anos 1990 e, de lá para cá, nunca vi esse domínio marxista ou gramsciano. Analisando o banco de tese da Capes, encontra-se um volume ínfimo com essas temáticas. O mesmo vale para os programas de disciplinas e os debates acadêmicos. É uma mentira que foi sendo consolidada no debate público e tomada como verdade. Eu acho que esse é o grande perigo do modus operandi dessa empresa, do Olavo de Carvalho e deste governo: eles estão sedimentando uma memória cultural que não tem compromisso com a verdade. Isso está se enraizando de tal maneira que vai ser muito difícil de desconstruir no curto prazo. Num debate, minha posição já vai deslegitimada de partida: eu sou um "professor de história esquerdista" — e de universidade pública, onde tem balbúrdia, doutrinação marxista e, agora, plantação de maconha [risos]. O meu lugar de fala já está minado por conta da sedimentação desse discurso mentiroso.

A gente ainda não encontrou alternativas para fazer frente a esse tipo de estratégia que se ampara na mentira. De toda forma, essa discussão tem uma dimensão positiva, que é trazer para o primeiro plano a importância das demandas sociais pelo passado e do direito à democratização da História. Sobretudo, mostra a relevância do conhecimento histórico e da necessidade de ele ser produzido de forma honesta e com compromisso em relação à democracia.

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Sobre o Autor

Jornalista e professor universitário na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. É também autor do blog Em Desconstrução (emdesconstrucao.blogosfera.uol.com.br), de Universa, coordenador do blog coletivo Entendendo Bolsonaro (entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br), e fundador e gestor do curso online contra fake news Vaza, Falsiane (www.vazafalsiane.com)

Sobre o Blog

Um espaço com visões, provocações e esperanças sobre a mais nobre das atividades humanas: educar.


Rodrigo Ratier